SINOPSE
Brasil, século XVI. Chegam ao país algumas órfãs, enviadas pela rainha de Portugal, com o objetivo de desposarem os primeiros colonizadores. Uma delas, Oribela (Simone Spoladore), é uma jovem sensível e religiosa que, após ofender de forma bem grosseira Afonso Soares D'Aragão (Cacá Rosset) se vê obrigada em casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), que a leva para seu engenho de açúcar. Oribela pede a Francisco que lhe dê algum tempo, para ela se acostumar com ele e cumprir com suas "obrigações", mas paciência é algo que seu marido não tem e ele a violenta. Sentindo-se infeliz, ela tenta fugir, pois quer pegar um navio e voltar a Portugal, mas acaba sendo recapturada por Francisco. Como castigo, Oribela fica acorrentada em um pequeno galpão. Deprimida por estar sozinha e ferida ela passa os dias chorando e só tem contato com uma índia, que lhe leva comida e a ajuda na recuperação, envolvendo seus pés com plantas medicinais. Quando ela sai do seu cativeiro continua determinada em fugir, até que numa noite ela se disfarça de homem e segue para a vila, pedindo ajuda a Ximeno Dias (Caco Ciocler), um português que também morava na região.
O filme tem roteiro de Alain Fresnot, Sabina Anzuategui e Anna Muylaert.
HISTÓRIA
Baseado no livro homônimo de Ana Miranda, o filme “Desmundo” narra a história das órfãs portuguesas que, em 1570, foram enviadas ao Brasil para se casarem com os colonizadores. Sob o apoio da Igreja, o Estado português pretendia que os colonos tivessem casamentos “brancos e cristãos” reduzindo, assim, o nascimento de crianças mestiças oriundas das relações com índias e negras. O filme inicia com um fragmento da carta enviada pelo padre Manoel da Nóbrega ao rei D. João, em 1552.
Oribela, 16 anos, é uma das órfãs portuguesas enviadas ao Brasil para o casamento forçado. Obrigada a casar com Francisco de Albuquerque, é levada para seu engenho de açúcar onde é violentada pelo marido. Tenta fugir, embarcar para um navio e voltar a Portugal, mas é recapturada por Francisco que a acorrenta em um pequeno galpão. Ali ela só conta com a ajuda de uma índia que lhe leva comida e aplica plantas medicinais em seus ferimentos. Quando ela sai de seu cativeiro, continua determinada em fugir, até que numa noite, ela se disfarça de homem e segue para a vila, pedindo ajuda a Ximeno Dias, um cristão-novo que morava na região. Mantêm-se escondida no estabelecimento do cristão-novo até ser descoberta pelo marido. Novamente capturada, Oribela retorna à casa de Francisco. Passado algum tempo, Oribela dá à luz a uma criança, deixando-se em dúvida quem seria seu pai. O drama vivido pela personagem faz compreender o título do filme: a colônia, longe de ser o paraíso imaginado pelos primeiros colonizadores e nem mesmo uma reprodução do Reino, transformou-se num “desmundo”, isto é, um “não-mundo”, termo aportuguesado do latim.
A MULHER NO BRASIL COLONIAL
No filme “Desmundo”, além de Oribela, dona Branca (Berta Zemel), dona Brites (Beatriz Segall) e outras personagens femininas traduzem a condição da mulher no Brasil colonial. Segundo os costumes da época, quando uma jovem perdia o pai, ficava sob a tutela do Estado português que se tornava responsável pelo seu futuro. Enviar órfãs para desposar colonos era uma prática comum e foi adotada em outras colônias, como, por exemplo, em Goa, na Índia, como forma de preservar a “pureza” da elite branca de origem portuguesa. A mulher vivia, então, submetida às leis do Estado e da Igreja sob o fundamento de que o homem era superior e, portanto, cabia a ele exercer a autoridade. A mulher devia submissão total ao homem seja ele o pai, o marido, o irmão ou um tio. Sua educação era voltada exclusivamente para os afazeres domésticos. Aprendia a cozinhar, fiar, tecer, bordar. O aprendizado da leitura e da escrita, quando ocorria, limitava-se ao mínimo restringindo-se ao funcionamento do futuro lar: ler, escrever, contar para redigir uma receita, um bilhete, uma lista de produtos etc. Casava-se menina ainda, com 12 anos completos ou até mais cedo. O matrimônio era decidido pelo pai e este ficava muito apreensivo quando a menina de 14 ou 15 anos ainda não se casara, ou pior, se sequer conseguira marido para ela. O noivo era, em geral, um homem bem mais velho, de trinta, sessenta até setenta anos. O ato sexual não se destinava ao prazer (especialmente para a mulher), mas à procriação de filhos. A relação sexual era marcada pela violência, quase um estupro, como bem mostra o filme.
O filme insinua uma relação incestuosa entre mãe e filho, pelos diálogos entre dona Branca e Francisco de Albuquerque e pela presença da menina excepcional sem que haja referência ao seu pai. Pode-se supor que a criança fosse filha de Francisco de Albuquerque, gerada de uma relação com a própria mãe.
A disponibilização deste filme tem finalidade única e exclusivamente acadêmica.
Fonte: https://ensinarhistoria.com.br/desmundo-o-... - Blog: Ensinar História