Trecho de "Crônica de um amor louco", filme de Marco Ferreri a partir de livro homônimo de Charles Bukowski (1983). Com Ben Gazarra e Ornella Muti.
ANTÍDOTOS PARA SURTOS DE HIPOCRISIA MORALISTA
Para poder escrever – e viver - Charles Bukowski foi, entre um porre e outro, frentista, faxineiro, motorista de caminhão e carteiro. Com essa versatilidade e doses sobre-humanas de álcool e pornografia escreveu romances, contos e poesias, além de textos de não-ficção. Vagabundos, alcoólatras, prostitutas, gigolôs e outros seres nada exemplares eram os habitantes de seu universo, nos livros e na vida real.
Ganhou fama quando publicou "Post Office" (Cartas na rua, 1971), livro que lhe deu ibope junto ao "eleitorado" feminino. Qual o mistério? Uma certa doçura, se é que assim se pode chamar sua maneira de tratar as mulheres, sem aquele machismo bronco e infantilóide comum a tantos homens. Chinaski, seu alterego em muitos livros, é um despossuído com estilo, bêbado e terno. Um sedutor no fio da sarjeta, pedindo sexo e colo. E, mesmo na desgraça, engraçado. Tudo isso é demasiadamente humano.
Em 72 publicou "Erections, Ejaculations, Exhibitions, and General Tales of Ordinary Madness" (1972), que saiu pela LPM em dois volumes: "Crônica de um amor louco" e "Fabulário geral do delírio cotidiano".
Foi do primeiro volume, mais especificamente do seu primeiro conto, "A garota mais bonita da cidade", que o italiano Marco Ferreri tirou o mote para fazer seu melhor filme: "Crônica de um amor louco", que tanto sucesso fez nos anos 80, e cujo cartaz emoldurado guardo como uma relíquia até hoje. Quem o viu na época (1983) dificilmente esquece de Ornella Muti interpretando Cass, a linda e triste prostituta. O cinema é tão poderoso que faz a gente se apaixonar por luz. Ornella Muti, junto com Louise Brooks, Rita Hayworth, Cyd Charisse, Grace Kelly, Lauren Bacall, Marylin Monroe, Ava Gardner, Sophia Loren, Brigitte Bardot, Anna Karina, Nastassia Kinski, Jean Seberg, Michelle Pfeiffer, Jessica Lange, Marisa Berenson, Maruschka Detmers, Charlize Theron, Scarlett Johansson e tantas outras nem tão famosas mas igualmente sensuais, faz parte de um panteão de deidades para as quais pobres mortais como eu endereçaram os mais sublimes e indecorosos desejos.
Extraí um trecho de "Crônica de um amor louco" que considero o mais liricamente obsceno. Bukowski da mais impura cepa, de deixar descabelado qualquer puritano.
Mas não se engane quem não conhece Bukowski: há compaixão na sua obra, sentimento inexistente na alma dos inquisidores de plantão.
Juarez Cavalcanti