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Brasil vende gado guzerá leiteiro por avião para o Senegal
Longe do saguão de passageiros do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), o cheiro de estrume no terminal de cargas já dá o "perfume" do que está atrás do portão de bloqueio: 194 cabeças de gado guzerá com destino ao Senegal, encomendadas pelo Governo Federal de lá. São 20 touros, 109 vacas e 65 bezerros ao pé. Na segunda-feira (26/1), os animais foram colocados em baias num avião cargueiro, e às 22h15 decolaram.
A compra, intermediada pelas empresas GBC, AIB Internacional e Alvo Agro, sinaliza uma relação mais próxima entre Brasil e o país africano, que busca diminuir a dependência de importação de leite e o combater a fome. Os animais serão distribuídos a famílias senegalesas com dinheiro público.
O Brasil venceu uma disputa licitatória com a França por ter uma melhor qualidade genética e um gado rústico que atende às necessidades que o clima subsaariano pede. Uma raça europeia provavelmente sofreria com a adaptação. A escolha do zebuíno também não foi em vão: criar guzerá significa "status" para o pecuarista, além da alta produtividade leiteira e de corte.
Por ter essa "grife", o transporte tinha que ser de luxo. Os animais foram enviados de avião em "classe executiva" para prover bem-estar aos bois. A viagem aérea até o Senegal dura quase sete horas a partir de São Paulo. De navio, meio tradicional para o transporte bovino entre países, leva até 22 dias.
A escolha do modal é determinada pela quantidade dos animais embarcados – em um rebanho grande, acima de mil cabeças e de valor mais comercial, o indicado é a exportação via oceano. Já quando a raça é mais nobre, e em menor quantidade, a empresa de consultoria sugere aviões cargueiros. “Nesses casos vale o investimento”, explica a zootecnista Fabiana Guandalini, proprietária da Alvo Agro. Cada exportação via aéreo custa entre US$ 750 mil e US$ 1 milhão. “Quem paga o valor dessa operação não é um simples pecuarista, e sim um apaixonado por gado. Nunca é só comércio”, complementa.
Os animais viajam de caminhão de Uberaba até o aeroporto de Campinas. Eles já adentram no veículo de uma forma que fiquem confortáveis no caminho e também de um jeito que facilite o desembarque. “Em nenhum momento o animal é tocado usando choques ou algo que os machuque. Usamos bandeirinhas, que são eficientes”, explica Fabiana. Para o percurso, a Alvo Agro também leva “uma lancheira” com comida e, para os bezerros que precisam, mamadeiras com leite.
No aeroporto de Viracopos, os bois ficam concentrados no curral construído no terminal de cargas em 2002. Essa estrutura fez com o que o local fosse o preferido para exportar via aéreo os animais no Brasil. No aeroporto de Natal (RN), foi preciso que a GBC construísse um estábulo privado capaz de condicionar os “passageiros” bovinos. Nesses locais, o plantel se alimenta antes da viagem, já que não há “serviço de bordo” e as vacas viajam separadas dos bezerros, não podendo amamentar.
Horas antes do embarque na aeronave, o gado é “embalado” nas caixas, que têm a porta de madeira lacrada com pregos e recebem identificação do Ministério. Só serão reabertas no Senegal. As caixas são embarcadas pelo bico do avião e pela entrada traseira.
Durante o voo, um veterinário viaja junto e desce da cabine de passageiros até o compartimento de cargas para conferir se todos os animais estão bem. Caso algum esteja mais agitado, é aplicada uma dose de sedativo para seguir viagem.
POR TERESA RAQUEL BASTOS, DE CAMPINAS (SP)