As danças de combate, Ladja (praticada na Ilha da Martinica, território francês no Caribe) e Laamb (do Senegal), são os pontos de partida para a leitura das obras apresentadas na exposição Corpos em luta. Nós, brasileiros, temos a Capoeira, que possui pontos em comum com a Ladja e a Laamb, estas 3 manifestações socioculturais são refúgio, memória e resistência de um corpo ancestral, coagido a percorrer o caminho da diáspora africana.
As imagens que compõem a exposição são registros de quem viu, vivenciou e pesquisou as práticas de combate na Martinica e Senegal. As obras aqui apresentadas não deixam de ter um perfil documentário, no entanto, Edu Monteiro vai além ao desfocar as linhas que definem os limites entre ser fotógrafo e artista, enfatizando características que sempre integraram seus meios de expressão artística.
A linguagem contemporânea, na multiplicidade de caminhos a que percorre, é a forma pela qual Edu Monteiro cria instalações, objetos escultóricos e fotografias que se sustentam apoiadas em ricos indícios simbólicos. A tensão gera o equilíbrio ancorado na pele. O carvão é uma referência à metáfora usada na Martinica para a pele negra, como algo que já queimou, sofreu, resistiu e ainda resiste. A pele esticada no espaço ocupa o vazio, preenche, rompe a parede da galeria, ao passo que o invisível ganha corpo. A todo tempo, Edu Monteiro nos insere como cúmplices de um ritual.
E por falar em ritual, alguns elementos que constituem a exposição são signos existentes durante a formação de rodas de danças de combate. Ao empilhar duas pedras, os praticantes da Lajda acreditam em uma conexão com o mundo espiritual, o que poderia consagrar o vencedor do combate. Já na luta senegalesa, o chifre de carneiro compõe a mandinga, conhecido como um elemento de poder e força vital. O tambor, tradicionalmente produzido com couro de carneiro, em ambas as manifestações é o instrumento responsável por gerar a energia e o ritmo para corpos em luta, de modo que seu som é considerado um elo entre o mundo real e o sobrenatural.
Edu Monteiro confere visibilidade às práticas de combate relacionadas à diáspora africana, sem fazer uso de uma narrativa panfletária, as danças de combate são a base do processo criativo das obras apresentadas. Trata-se de memórias, gestos e ritmos tradicionais transformados em objetos de arte através de experimentações e subjetividades. O que reverbera uma produção artística consolidada na contemporaneidade, com identidade e repertório bem definidos.