Em geral temos uma visão muito "mecanicista" quando pensamos na etiologia de todas trincas e fraturas radiculares.
Porém existe uma etiologia desconhecida ou desdenhada por muitos que é MICROBIOLÓGICA, e imposta por limitações ao tratamento endodôntico decorrentes da COMPLEXIDADE ANATÔMICA do sistema de canais radiculares. Destaco a região de istmos entre canais e regiões polares de canais ovais alongados no sentido transversal.
Não ache que, não colocando retentor intrarradicular (sejam metálicos ou de fibra) ou obrigando os pacientes a usarem placa oclusal todo dia, vocês vão conseguir evitar essas fraturas radiculares tardias pós-endodontias em dentes que apresentam essas características anatômicas. O processo leva anos (até décadas) para ocorrer, e muitas vezes culpamos "o mordomo" (o "suspeito óbvio"), caso haja algum retentor intrarradicular no dente ou o paciente apresente bruxismo.Porém, quando analisamos o padrão de muitas trincas, não há explicação biomecânica que satisfaça. E para surpresa de muitos, nem esses costumeiros "suspeitos óbvios" estão presentes.
Não sei se é uma percepção particular minha, mas venho observando um aumento significativo desse tipo de trinca nos últimos anos, resultado de tratamentos feitos já há vários anos. Seu diagnóstico é muito difícil, mesmo com auxílio de Tomografia Computadorizada Volumétrica de Feixe Cônico (CBCT) e caso haja algum retentor intrarradicular metálico, tal exame é quase inútil devido à geração de artefatos que impossibilitam uma visualização precisa da região. A resolução gráfica dos equipamentos CBTC atualmente também é uma limitação, principalmente para trincas pequenas. E a tecnologia de Micro CT por enquanto é restrita para pesquisa laboratorial.
Em muitos casos só temos certeza MESMO da presença de trinca após a exodontia do elemento, porém sempre ficava uma grande interrogação quanto à etiologia desses casos. Após assistir a um vídeo "iluminador" do professor Gary Carr, veio-me a inspiração para seccionar os dentes extraídos com esse tipo problema e observar em microscópio. Todos que tenho avaliado até agora confirmam essa teoria: extensa presença de biofilme naquelas regiões que descrevi anteriormente, com "vazios" de tratamento endodôntico e justamente em raízes que protesistas NÃO colocam retentor intrarradicular, pois são aquelas que apresentam canais estreitos e normalmente apresentam mais de um canal com presença de comunicação (istmo) entre eles.
Sei que muitos endodontistas devem estar cientes desse problema, mas os protesistas e clínicos gerais não. Decidi então, tentar explicar esse problema extremamente complexo da forma mais didática possível em vídeo para a compreensão de todos.
Espero que apreciem!
Meus agradecimentos especiais aos amigos Fernando P. Pastor, Renata Morceli Campos e Gledson Cássio Bella por me cederem alguns espécimes que aparecem nesse vídeo para análise.
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