Vilma fala com as árvores e não tem vergonha disso. Seus pais, quando pequena, a levavam para morar em diferentes lugares a depender da labuta na terra dos outros. Toda vez que iam embora, chorava e se despedia, com abraços, das suas plantas preferidas plantadas naquele lugar. "Nós vamos ter que sair daqui porque o homem pediu a terra", dizia seu pai. A vida toda a família era "fraca de situação", conta ela, se referindo à pobreza dela e dos pais. Vilma "fugiu" com o primeiro marido, hoje falecido, para Rondônia com apenas 17 anos. Teve cinco filhos, órfãos de pai cedo. Contou com ajuda dos outros para conseguir alimentá-los e, depois, ir para Mato Grosso, terra de oportunidades. Realizou o seu sonho por um projeto da prefeitura de Cotriguaçu que cedia chácaras na cidade para agricultores que queriam produzir. E Vilma queria. À medida que plantava no canteiro, seu esposo diminuía o consumo de álcool, que trazia tanto mal à família. Até um dia parar. A agricultura associou e hoje vende na feira o que planta em casa. Sem acesso aos estudos e alfabetização, são outros os conhecimentos que hoje a agricultora passa para os netos que ajuda a criar. “Eu não sei se vai ser assim a vida de vocês, que nem a minha, carpindo, plantando. Mas que vocês segurem o padrão de sinceridade, de fazer as coisas certas e correr atrás”, diz. Vilma cria amor pelas plantas e pelos bichos que rodeiam sua casa. Para ela, a floresta é a morada deles. "O mato em pé é sagrado, ele é vivo", diz. É onde encontra sua força e onde deposita toda sua esperança de um futuro para seus netos cheio de cantos de pássaros, pulos de macacos e sombra de árvores.
A SÉRIE
Minha Vida Na Amazônia é uma produção de Maria Filmes e do Instituto Centro de Vida (ICV) que mostra o que é viver num dos biomas mais diversos importantes do mundo para alguns dos beneficiários da instituição, moradores e moradoras das regiões norte e noroeste de Mato Grosso.