Eduardo Ribeiro da Fonseca "Freud, Nietzsche: Impulso, natureza e cultura" (4) 09 de maio de 2023.

Опубликовано: 09 Октябрь 2026
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Freud, Nietzsche: Impulso, natureza e cultura.
Encontro 4 do seminário de Eduardo Ribeiro da Fonseca.
"O perigo dessas comunidades fortes, fundadas sobre indivíduos homogêneos e cheios de caráter, é o aumento gradativo, por hereditariedade, do embrutecimento que acompanha toda estabilidade como sua sombra. É dos indivíduos mais desvinculados, muito mais inseguros e moralmente mais fracos que depende o progresso espiritual em tais comunidades; são eles os homens que ensaiam o novo e, em geral, a variedade. Inúmeros dessa espécie se arruínam, por sua fraqueza, sem exercer efeito muito visível; mas, no geral, sobretudo quando têm posteridade, eles afrouxam o elemento estável «;ie uma comunidade e de tempo em tempo lhe causam uma ferida. Precisamente nesse lugar ferido e enfraquecido é como que inoculado na comunidade algo de novo; sua força no todo tem de ser, entretanto, bastante grande para acolher esse novo em seu sangue e assimilá-lo. As naturezas degenerantes são de suprema significação, por toda parte onde deve suceder-se um progresso. Todo progresso em grande escala tem de ser precedido de um enfraquecimento parcial. As naturezas mais fortes mantem firme o tipo, as mais fracas ajudam a aperfeiçoá-lo. - Algo semelhante se verifica com o homem singular; raramente uma degeneração, uma mutilação, mesmo um vício e em geral uma perda corporal ou ética deixam de ter uma vantagem por um outro lado. O homem mais doente, por exemplo, terá talvez, em meio a uma estirpe belicosa e intranquila, mais ocasião para ficar a sós e, por isso, tornar-se mais tranquilo e mais sábio, o caolho terá um olho mais forte, o cego olhará mais profundamente para dentro e, em todo caso, ouvirá mais agudamente. Nessa medida parece-me que a célebre luta pela existência não é o único ponto de vista a partir do qual pode ser explicado o progresso ou fortalecimento de um homem, de uma raça. Em vez disso, têm de conjugar-se duas coisas: primeiramente, um aumento da força estável por vinculação dos espíritos na crença e no sentimento comum; em seguida, a possibilidade de chegar a alvos superiores por aparecerem naturezas degenerantes e, em decorrência delas, enfraquecimentos e ferimentos parciais da força estável; precisamente a natureza mais fraca, sendo a mais delicada e fina, toma possível em geral todo progresso. Um povo que em algum ponto se toma quebradiço e fraco, mas no todo é ainda forte e sadio, é capaz de acolher a infecção do novo e incorporá-la com proveito. Quanto ao homem singular, a tarefa da educação é a seguinte: torná-lo tão firme e seguro que ele como um todo não possa mais ser desviado de sua rota. Em seguida, porém, o educador deve causar-lhe ferimentos, ou utilizar os ferimentos que o destino lhe faz, e quando desse modo tiverem surgido a dor e a carência, pode também, nos lugares feridos, ser inoculado algo novo e nobre. Sua natureza inteira o acolherá em si e mais tarde, em seus frutos, fará sentir o enobrecimento". (NIETZSCHE, Obras incompletas, In: Coleção Os pensadores, p. 85.)