Eduardo Ribeiro da Fonseca - FREUD, NIETZSCHE: IMPULSO, NATUREZA E CULTURA (3) - 02 05 2023

Опубликовано: 16 Июль 2026
на канале: Canal Tópicos de Filosofia da Psicanálise
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O termo “cultura” em Nietzsche e em Freud

Em diversos textos de Nietzsche percebe-se uma tessitura de termos alemães nos quais se evidencia a presença do radical bild - do verbo bilden (formar, moldar e, em sentido figurado, educar) e do substantivo Bild (imagem, cópia). Isso se exemplifica no uso de termos associados ao radical bild, tais como Bildung (cultura), Gebilde (formação, estrutura), Einbildung (imaginação) e o supramencionado substantivo Bild, nos quais se acentua o parentesco e o jogo semântico entre cultura e imagem. Uma tradução possível do termo Gebilde por "formação" nos possibilita visualizar o jogo possível com a palavra Form que por vezes o filósofo utiliza. Na sua crítica presente na segunda extemporânea de 1874 ao sentido histórico irrefreado, essa tessitura de termos se evidencia e tem para mim o sentido de revelar a oposição entre dois modos culturais que se antepõem, não necessariamente no tempo, mas como atitudes fundamentais, uma delas que gera, que fomenta, que cria, que renasce, que forma pessoas em sentido próprio, “homens desde o fundo”, (Obras incompletas, p. 279.) cultura esta voltada para o investimento no que existe como potencial incremento para a vida futura, e a outra tendência, que se lhe opõe, uma tendência para a uniformidade, para a forma sem conteúdo, que se volta para o passado, muitas vezes para a erudição vazia, frequentemente para a persistência e o domínio doentio de valores predominantes e que sufocam o florescimento de novas formas de vitalidade (“a doença da vontade de poder”). Tal cultura tende a formar, dada a sua uniformidade, eruditos vazios.
O olhar voltado ao passado seria uma espécie de encerramento e balanço da vida para a humanidade, ainda que a vida insista em seguir adiante. O olhar histórico, que zela pelo passado, só pode ser salutar, no contexto da segunda extemporânea, se permanece atento ao fluxo vindouro da vida e ao vir a ser, portanto, somente quando se deixa assimilar ao fluxo das possibilidades da existência que resultam em novas formas de viver. A vida entendida como noção que engloba a História e não pode ser submetida a ela, isto é, o que persevera é o todo e não suas adejantes formas transitórias e cambiáveis. A História é útil na medida em que possibilita nos mantermos saudáveis, mas quando se torna uma preocupação desmedida da cultura, serve ao declínio, à degeneração. E, com isso, de acordo com Nietzsche, degenera a própria história. (...) Em Freud, ao seu turno, o termo utilizado em sua mais proeminente obra de caráter sociológico é “Kultur”, que pressupõe tanto uma tradução como cultura, no sentido de “Bildung”, como também uma tradução como “civilização”, no sentido de um processo civilizatório, que implica, por sua vez, em um processo sublimatório. Freud escolhe o termo atento a essas tensões semânticas que expõem na verdade as tensões políticas de sua época, em especial a ascensão do totalitarismo nazista, o antissemitismo e o nacionalismo delirante que, ao final, causou a derrocada da Psicanálise em solo austríaco e alemão e o levou ao exílio. A “Kultur” expõe simultaneamente o seu caráter identitário e sua face civilizatória, que exige uma abertura à diferença, às interpretações que se complementam e ao intercâmbio entre as pessoas de origens diferentes.