Pro ator o corpo é uma haste que precisa sustentar uma estrutura delirante de cor, vida, impressões — é a arquitetura duma flor. Mas, no cinema de Karim Aïnouz, ele deixa de ser apenas essa espécie de sustento ou moldura para tornar-se a tela onde tramas são projetadas; mais que uma tela, o corpo torna-se uma língua viva capaz de contar vivências com pele, músculos e ossos. E em Praia do Futuro essa linguagem é, a cada detalhe acessado, fascinante.
Antonioni é a linha mestra de Aïnouz. O italiano retratou a alienação de seus personagens na própria arquitetura moderna, sob a inacessibilidade dos altos prédios e dentro das estruturas isolantes dele. Em Karim é na arquitetura corporal que o dilema de Donato, seu protagonista, um salva-vidas, é erguido: em suas costas largas ele suportou o fardo dos afogados salvos e, do mesmo modo, impôs sobre si a carga das expectativas alheias.
Nada é desperdiçável quando Aïnouz (re)pousa seu olhar sobre a carne de seus atores (...) O cineasta mantém desejos vivos em imagens que nos arrastam até afundarmos nelas. Sua tela é como um aquário onde sutilezas se debatem em inarredáveis correntes de paixão.