Sequência final de Terra em Transe, Glauber Rocha, 1967 HD 1080p

Опубликовано: 05 Июнь 2026
на канале: Larissa Pereira Gouveia
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Num cenário, não casualmente em branca nuvens que, pelo uso da grande profundidade de campo, nos causam a impressão de estarem se desmilinguindo na linha da areia igualmente alva, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) morre sem sangue aparente e de rifle em riste — a maior parte do tempo, ele o sustenta pro alto; como, afinal, é a sina do artista: manter-se vertical, diante da realidade horizontal.

Vemos o poeta num plano fixo e, pela distância focal, ele faz-se diminuído pelo excesso de cenário a compor o plano ao seu redor.

Tudo, nesta composição cinematográfica, traduz uma atmosfera de expectativa, inclusive a melodia que, embora ameace um arremesso ao subir o tom, não se ilumina e expressa suspensão. A música mistura-se ao som de rajadas de tiros, sobrepostos a estrepitosas sirenes e estes ruídos, interferências, quase a tornam inaudível. De modo que a própria melodia parece travar uma batalha entre o lirismo interior e a fatalidade exterior — como a nos lembrar que, naquele momento, a janela para a arte foi arrombada pela realidade e a beleza desvirginada por ela.

Era 1967, três anos após o golpe militar implantado e a pleno vigor, o avesso do ideal de uma revolução acalentada que, enfim, não vingou — o próprio sonho, de toda uma classe média intelectualizada, ele mesmo passou em brancas nuvens. A paisagem esvaziada é a circunstância e, nela, o intelectual parece apequenado.

Mesmo expulso do enquadramento, Paulo se desloca; ele é um lento caracol, sob a concha de seu ideal, a prolongar sua linha existencial. Escanteado, à direita no quadro, forceja por alcançar o centro do palco imaginário. Por outro lado, quando o alcança, segue agonizando; mas, entre a impotência e a contorção diante dela, não largou jamais o gatilho de sua arma simbólica (sua voz ativa).

A morte filosófica e a persistência diante disso, a utopia e a derrota de um projeto de país — os paradoxos, daquele tempo, aqui são como camadas de tinta compondo a natureza de um morto-vivo. É a alegoria definitiva sobre o espírito animal de um artista ou intelectual e de como era o zeitgeist naquele momento pós-golpe militar.

Paulo Martins é corpo de um baile pela resistência armada, agarrado ao fuzil, o objeto fruto do desejo abortado, agoniza sua dança letárgica frente à ideia de não tê-la consumado. Aliás, não só nesta cena final, o filme é entrecortado por acessos de tiros que estalam como ecos na estática do nada.

No entanto, se o poeta repudia a covardia do recuo de Vieira (ante a possibilidade de uma guerrilha), ele próprio não atirou no fascista ‘Díaz’. Em verdade, sua vocação para subjetividade talvez não suportasse o fardo (ou a farda) da violência literal. Sua morte ele a toma como antídoto contra a paralisia política (dele e dos outros); sai da vida batendo a porta, com desobediente determinação, como um suicida o faz.

Este poeta que se oferece para um auto sacrifício, enfim, é o próprio criador da Terra em Transe — ousando pensar a controversa realidade, Glauber Rocha serviu-se em bandeja de prática autocrítica. Seu cinema é a sua forma de atirar “nonada”.

O que nos soa como inútil paisagem (“Mas pra quê?/ Pra que tanto céu?”), vista neste último longo plano sequência, ainda se manterá até quase nos perder da sua vista. E, antes que os créditos tomem conta da tela, não há um desfecho para o protagonista sobrando nela; Paulo não tomba e nem tampouco se reergue:

Glauber empurra o clima de tensão, da realidade, para fora da diegese de seu filme. Em pleno voo sobre os destroços de um país sonhado, eis que ele ejeta os espectadores no abismo dos fatos. Os seus contemporâneos que lutassem! E, nós, os seus herdeiros? Recebamos o baque eternizado em forma de arte.

Mais de meio século depois, porque nos decifrou, o cineasta ainda nos devora. Mas de repente, não mais que de repente, um só fragmento deste seu delírio barroco é capaz de abarcar toda a experimentação cinematográfica. E é este aqui descrito: a derradeira cena numa montagem elíptica; sem diálogos, sem acessórios cenográficos. O vazio cheio de si. Darcy Ribeiro, em 1981, discursando no enterro desta Rocha que voou, lhe prometeu: “vai ser, há de ser, Glauber!”.