Em meio a um chão “áspero, intratável”, surge um travelling circular onde o que foi uma adiada, emudecida, aproximação de dois corpos estranhos, em seguida, transforma-se na excitação de jump cuts regidos pela 'Ária da Bachiana 5' (de Villa Lobos). E quem mais (senão Glauber) faria ressoar, nos descampados de Cocorobó, o eco do Barroco erudito?
'Rosa e Corisco' dão o beijo mais carnal, jamais alcançado por nenhum outro cineasta! Filmados em plano fechado — incluindo big-closes que parecem romper o pacto com a tela e fazem o áspero cerrado, na barba de 'Corisco', ganhar o poder de nos arranhar — , nós somos invadidos por eles e passamos a pertencer a este conjunto.
Dois desencapados fios de alta tensão, a beleza e a barbárie entram em curto circuito numa ligação direta entre bocas, sangue coalhado e mãos; chapéu de cangaço e grinalda de noiva.
'Capitão Corisco' — matador inclemente — vê-se cercado pela mulher sofrida, agora, atuada pela femme fatale; 'Rosa' aflora-se em instintos, feromônios, fareja e abocanha sua presa. É o ponto exato onde acontece o eclipse do machismo sertanejo e a subversão da violência sexual praticada pelos cangaceiros e isso se dá no único trecho de liberdade deste anti-herói, condenado a caminhar em círculos numa geografia cênica em que nunca veremos o horizonte — afinal, o 'Capitão' já estava capturado até mesmo pelas lentes que limitam seu protagonismo caótico a um palco pedregoso com pouca profundidade de campo.
Mais morto que vivo, 'Corisco' é corpo atuado pelo espírito do passado e só sobrevive à base de rituais que repetem seu falecido mentor: Lampião. Mas seu encontro com Rosa é a fresta de vida presente que se abre em forma de lábios. O beijo é o nutriente proteico para uma magra vida Severina, dado momentos antes de morrer, frontal, sob o ‘papo amarelo’ de Antonio das Mortes — e não se entregando, não! Mais forte? São os poderes do sertão!
Othon Bastos e Yoná Magalhães são anti-mocinhos cinematográficos, o contrário dos ‘higiênicos’ casais Hollywoodianos — fazem amor e revolução naquele velho ideal de romance ambientado no núcleo do capitalismo. Carnes de Sol, eles se mastigam enquanto são engolidos pelo sertão cru; jamais enfeitariam sua cobertura com doces juras.
Enfim a sós, são duas espécies de animais em extinção, fundem-se não por um sentimento idealizado que redimirá os amantes condenados. 'Rosa' e 'Corisco' aceitam a tragédia anunciada que há em um e no outro e desafiam a fixa realidade pétrea fazendo faíscas entre dois corpos inflamáveis. Eis os despossuídos que se mostram atuantes através da violência visual, nos conformes da ‘Eztetika da Fome’ glauberiana.
Se estas imagens deslumbram por si só, é impossível não citar também o senso musical do cineasta — algo que vai além de apenas acrescentar uma música do lado de fora da diegese fílmica:
Aqui, a trilha sonora não apenas cria uma atmosfera emotiva ou adiciona sensações à cena; ela rege o próprio ritmo da sequência, é metalinguística. Diga-se: reza a lenda que Rocha elegia as cenas de seus filmes na moviola, nu, ao som dos temas de Villa Lobos. E é de se destacar a sua imensa sensibilidade ao escolher pra essa tomada justamente uma ária de dinâmica rítmica circular, acentuada todo o tempo pela ênfase dos pizzicatos ao violoncelo. Tal e qual o encontro de 'Rosa' e 'Corisco', onde ela injetou fantasia na persistente e irredutível luta dele, um tema que une o insistente do pizzicato ao delírio vocal da soprano.
“Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão” [G.Rosa]
“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera” [G.Rosa]
Súbito é este o momento mais lindo da humanidade ou, no mínimo, o mais repleto de humanidade!